• O que são Células-Tronco?

    As células-tronco podem ser diferenciadas e dar origem a diferentes células e tecidos do organismo. Esta é uma capacidade especial, pois, geralmente, as outras células só podem fazer parte de um tecido específico (por exemplo, as células do coração só podem constituir o coração). Por este motivo, este tipo de células apresenta um grande potencial para sua utilização em aplicações terapêuticas. Outra capacidade especial das células-tronco é a autorreplicação[1], ou seja, podem dar origem a cópias idênticas de si mesma, garantindo uma reserva de células com capacidade de diferenciação (capacidade de se transformarem em diferentes tipos de células). [2] [3]

    Esta explicação torna-se simples se pensarmos que, ao longo da nossa vida, o corpo humano, devido às agressões a que está sujeito, sofre múltiplas reparações dos tecidos que o compõem. Além disso, à medida que as nossas células envelhecem e morrem, ocorrem substituições celulares sucessivas para que se mantenha o equilíbrio. Esta renovação celular ocorre por meio das células-tronco devido à sua enorme capacidade de multiplicação e transformação nos tecidos em falta. Dependendo do tipo de célula gerada, podem classificar-se em dois grupos:

    Ref.
    1.He, S., D. Nakada, and S.J. Morrison, Mechanisms of stem cell self-renewal. Annual review of cell and developmental biology, 2009. 25: p. 377-406.
    2.Weiss, M.L. and D.L. Troyer, Stem cells in the umbilical cord. Stem cell reviews, 2006. 2(2): p. 155-162.

    3.Burns, C.E. and L.I. Zon, Portrait of a stem cell. Developmental cell, 2002. 3(5): p. 612-613.

    • Células-Tronco Hematopoéticas

      São células capazes de dar origem a qualquer célula da circulação sanguínea, obtidas do sangue do cordão umbilical, que permanece no cordão umbilical do bebê e na placenta no momento do nascimento.

      Vantagens da criopreservação do sangue do cordão umbilical

      Até recentemente, a única terapia para doenças graves como determinadas leucemias, anemias, linfomas, mielomas, entre outras, consistia na realização de transplantes de medula óssea de um possível doador compatível com o paciente para prevenir a rejeição imunológica[4]. O processo de procura de um doador compatível é efetuado, em primeiro lugar, na própria família. A probabilidade de um irmão ser compatível é de cerca de 25%, enquanto a de um doador compatível não aparentado diminui para cerca de 0,01%.[5]

      As probabilidades de êxito em transplantes em que são utilizadas células de irmãos são de aproximadamente 60% e apenas de cerca de 30% quando as células utilizadas provem de doadores não aparentados que apresentem a mesma compatibilidade. [6]

      Demonstrou-se que o transplante de sangue do cordão umbilical com um grau menos de compatibilidade apresenta menos riscos de rejeição do que o transplante de medula óssea.

      No caso do sangue do cordão umbilical, existe uma compatibilidade de 100% com o bebê, não havendo qualquer possibilidade de rejeição. Por outro lado, a probabilidade de as células do seu filho serem compatíveis com as de algum familiar direto é muito superior a que encontraríamos em doadores não aparentados.

      Além disso, a disponibilidade das células-tronco do cordão umbilical é imediata caso seja necessário utilizá-las. A procura de outra fonte de células pode exigir muito tempo, o que nem sempre é possível.


      Ref.
      4. Thomas, E.D., et al., One hundred patients with acute leukemia treated by chemotherapy, total body irradiation, and allogeneic marrow transplantation. Blood, 1977. 49(4): p. 511-533.
      5. Meinerz, C., et al., Avaliação do percentual de compatibilidade HLA entre membros da mesma família para pacientes à espera de transplante de medula óssea em Santa Catarina. Rev Bras Hematol Hemoter [Internet], 2008.
      6. Tabak, D.G., Transplante de medula óssea em leucemia mielóide aguda. Rev Bras Hematol Hemoter, 2000. 22(1): p. 55-62.

    • Células-Tronco Mesenquimais

      São células que podem diferenciar-se em laboratório em vários tecidos “mesenquimais”, incluindo ossos, cartilagens, tendões, músculos, tecidos adiposos, pele e estroma da medula óssea. Podem ser obtidas do tecido do cordão umbilical, através de um fragmento do próprio cordão, após extração do sangue.

      Vantagens da criopreservação de tecido do cordão umbilical

      É possível obter células-tronco mesenquimais a partir de vários tecidos, tais como a medula óssea, os ossos, os tecidos adiposos, o tecido do cordão umbilical, o dente de leite e até do sangue do cordão umbilical. Quando obtidas a partir do cordão umbilical registra-se apenas uma eficácia de 20%, quando obtidas a partir da placenta coriônica registra-se uma eficácia de cerca de 50% e quando obtidas a partir do próprio tecido do cordão umbilical, registra-se uma eficácia de quase 100%. Além disso, embora possa ter células-tronco mesenquimais do próprio sangue do cordão, a eficácia será multiplicada por 5 se for utilizado tecido do cordão umbilical para uma futura aplicação no campo da regeneração celular.[7]

      Em termos gerais, o tecido do cordão umbilical deverá ser cultivado em laboratório para obtenção deste tipo de células-tronco. Uma vez analisadas e identificadas, será realizada a criopreservação, efetuada de um modo similar à das células-tronco do sangue do cordão umbilical.

      O potencial das células-tronco são, em geral, uma das descobertas mais inovadoras no domínio da medicina e é visto como uma esperança para, no futuro, curar doenças que atualmente não tem tratamento.

      Ref.
      7. Hendijani, F., H. Sadeghi-Aliabadi, and S. Haghjooy Javanmard, Comparison of human mesenchymal stem cells isolated by explant culture method from entire umbilical cord and Wharton's jelly matrix. Cell and tissue banking, 2014. 15(4): p. 555-565.

  • Aplicações Terapêuticas

    O primeiro transplante de células-tronco do sangue do cordão umbilical foi realizado em 1988, em Paris, numa criança que sofria de anemia de Fanconi. Esta amostra de sangue do cordão umbilical foi obtida a partir do sangue criopreservado de um familiar da criança e transplantada. Passado um ano, o sistema imunológico da criança era idêntico ao do doador[8].

    Até 2010 foram realizados mais de 9000 transplantes com células-tronco do sangue do cordão umbilical, quase todos de origem alogênica[9].

    Dependendo do tipo de células utilizadas, os transplantes podem ser alogênicos, se as células utilizadas forem de um doador diferente, ou autólogo, se as células utilizadas pertencerem ao próprio receptor, sendo que, neste caso, as células são criopreservadas antes do aparecimento da doença. A maioria dos transplantes de sangue do cordão umbilical realizados até ao momento tem sido transplantes alogênicos.

    As células de origem alogênica têm sido utilizadas com êxito no tratamento de diversos tipos de cancros, imunodeficiências e doenças genéticas:

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    Doenças com aplicações terapêuticas tratáveis

    LEUCEMIAS

    • Leucemia Aguda
    • Leucemia Linfoblástica Aguda (ALL)
    • Leucemia Mielógena Aguda (AML)
    • Leucemia Bifenotípica Aguda
    • Leucemia Indiferenciada Aguda


    LEUCEMIA CRÓNICA

    • Leucemia Mielógena Crónica (CML)
    • Leucemia
    • Linfocítica Crónica (CLL)
    • Leucemia Mielógena Crónica Juvenil (JCML)
    • Leucemia Mielomonocítica Juvenil (JMML)


    SÍNDROMES MIELODISPLÁSICOS

    • Anemia Refratária (RA)
    • Anemia Refratária com Sideroblastos em Anel (RARS)
    • Anemia Refratária com Excesso de Blastos (RAEB)
    • Anemia Refratária com Excesso de Blastos e Transformação (RAEB-T)
    • Leucemia Mielomonocítica Crónica (CMML)


    LINFOMAS

    • Linfoma de Hodgkin
    • Linfoma de Burkitt


    ANOMALIAS HEREDITÁRIAS DOS ERITRÓCITOS

    • β-Talassemia Maior ou Anemia de Cooley
    • Anemia de Blackfan-Diamond
    • Aplasia Pura dos Eritrócitos
    • Doença das Células Falciformes (Anemia Falciforme)


    DISFUNÇÕES METABÓLICAS HEREDITÁRIAS

    • Doença de armazenamento de mucopolissacarídeos
    • Mucopolissacarídeos
    • Síndrome de Hurler
    • Síndrome de Schele
    • Síndrome de Hunter
    • Síndrome de Sanfilippo
    • Síndrome de Morquio
    • Síndrome de Maroteaux-Lamy
    • Síndrome de Sly, Deficiência de Beta-Glucuronidase
    • Mucolipidose II


    OUTRAS DISFUNÇÕES DA PROLIFERAÇÃO DAS CÉLULAS SANGUÍNEAS

    • Anemia Aplástica Severa
    • Anemia Diseritropoiética Congénita (ADC)
    • Anemia de Fanconi
    • Hemoglobinúria Paroxística Noturna (PNH)
    • Aplasia Pura dos Eritrócitos


    ANOMALIAS HEREDITÁRIAS DAS PLAQUETAS

    • Amegacariocitose, Trombocitopenia Congénita
    • Trombastenia de Glanzmann
    • Disfunções Mieloproliferativas
    • Mielofibrose Aguda
    • Metaplasia Mielóide Agnogénica (Mielofibrose)
    • Policitemia Vera (PV)
    • Trombocitémia Essencial


    DISFUNÇÕES HEREDITÁRIAS DO SISTEMA IMUNITÁRIO

    • SCID com Deficiência de Adenosina Deaminase (ADA-SCID)
    • SCID Ligada ao Cromossoma X
    • SCID com Ausência de Células T e Células B
    • SCID com Ausência de Células T e com Células B normais
    • Síndrome de Omenn
    • Gamaglobulinopatia Ligada ao Cromossoma X
    • Deficiência de Fosforilase dos Nucleotídeos de Purinas
    • Síndrome de Kostmann
    • Mielocatexia
    • Ataxia
    • Telangiectasia
    • Imunodeficiência Variável Comum
    • Síndrome de DiGeorge
    • Deficiência da Adesão Leucocitária
    • Doenças Linfoproliferativas (LPD)
    • Doença Linfoproliferativa Ligada ao Cromossoma X suscetibilidade ao vírus de Epstein-Barr)
    • Síndrome de Wiskott-Aldrich


    DOENÇAS DOS FAGÓCITOS

    • Síndrome de Chediak-Higashi
    • Doença Granulomatosa Crónica
    • Deficiência em Actina nos Neutrófilos
    • Disgenesia Reticular


    CANCRO DA MEDULA ÓSSEA

    • Mieloma múltiplo
    • Leucemia por Células Plasmáticas
    • Macroglobulinemia de Waldenstrom
    • Disqueratose


    OUTROS CANCROS

    • Neuroblastoma
    • Retinoblastoma

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    Doenças com tratamento em fase de ensaio clínico

    TRANSPLANTES PARA TUMORES CANCERÍGENOS

    • Cancro de Mama
    • Sarcoma de Swing
    • Carcinoma das Células Renais


    TRANSPLANTES PARA DOENÇAS HEREDITÁRIAS QUE AFETAM O SISTEMA IMUNOLÓGICO E OUTROS ÓRGÃOS

    • Hipoplasia Cartilagem-Cabelo
    • Doença de Gunther (Porfíria Eritropoiética)
    • Síndrome de Hermansky-Pudlak
    • Síndrome de Pearson
    • Síndrome de Shwachman-Diamond
    • Mastocitose Sistémica


    TRANSPLANTES PARA DOENÇAS METABÓLICAS HEREDITÁRIAS LEUCODISTROFIAS

    • Adrenoleucodistrofia (ALD)
    • Adrenomieloneuropatia (AMN)
    • Doença de Krabbe (Leucodistrofia de Células Globóides)
    • Leucodistrofia Metacromática
    • Doenças de Acumulação Lisossómica
    • Doença de Gaucher
    • Doença de Niemann-Pick
    • Doença de Sandhoff
    • Doença de Tay-Sachs
    • Doença de Colman
    • Outras Doenças Hereditárias
    • Síndrome de Lesch-Nyhan
    • Osteopetrose


    TRANSPLANTES PARA DOENÇAS DA PROLIFERAÇÃO CELULAR

    • Doenças Histiocíticas
    • Linfohistiocitose Eritrofagocítica Familiar
    • Hemofagocitose
    • Histiocitose das Células de Langerhans (Histiocitose X) (LCH)


    TRANSPLANTES PARA DOENÇAS DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL

    • Esclerose Múltipla


    TERAPIA GÉNICA

    • Trombastenia de Glanzmann
    • Imunodeficiência Severa Combinada (SCID)
    • SCID com Deficiência em Adenosina Deaminase (ADA-SCID)
    • SCID Ligada ao Cromossoma X


    CARDIOMIOPLASTIA CELULAR

    • Autotransplante de HSPC

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    Doenças com tratamento em fase experimental

    DOENÇAS AUTOIMUNES

    • Artrite Juvenil
    • Artrite Reumatoide
    • Doença de Crohn
    • Diabetes Tipo I
    • Síndrome de Evan
    • Esclerodermia
    • Lúpus Eritematoso Sistemico


    TERAPIA GENÉTICA

    • Anemia de Fanconi
    • Doenças Metabólicas (Leucodistrofias, Doenças de Armazenamento, etc.)
    • Doença de Parkinson


    REPARAÇÃO DE CÉLULAS DO SISTEMA NERVOSO

    • Doenças do Sistema Nervoso Central
    • Esclerose Lateral Amiotrófica
    • Doença de Alzheimer
    • Doença de Huntington
    • Doença de Parkinson
    • Patologias Traumáticas
    • Lesão da Médula Espinal
    • AVC, Anoxia Neonatal


    REPARAÇÃO DE FRATURAS ÓSSEAS

    REPARAÇÃO DE ÓRGÃOS

    • Rim
      Transplante Combinado de Rim e de HSPC
      Diferenciação de HSPC em Células Renais

    • Fígado
      Diferenciação de HSPC em Células Hepáticas (por exemplo, Insuficiência Hepática por Toxicidade dos Fármacos)

    • Outros
      Diferenciação de HSPC em Células Ósseas, Condrócitos, Adipócitos, Vasos Sanguíneos e Células Musculares Esqueléticas e Cardíacas

    Ref.
    8.Gluckman, E. and V. Rocha, History of the clinical use of umbilical cord blood hematopoietic cells. Cytotherapy, 2005. 7(3): p. 219-227.
    9.Seres, K.B. and P. Hollands, Cord blood: the future of regenerative medicine? Reproductive biomedicine online, 2010. 20(1): p. 98-102.

  • Banco Privado ou Doação?

    O Sangue do cordão umbilical pode ser criopreservado num banco privado como a WideCells para uso próprio ou intrafamiliar ou num banco público para que esteja disponível para qualquer pessoa que dele necessite, ou pode ainda doá-lo para pesquisa. Independentemente da sua decisão, pedimos, em nome do coletivo científico-técnico da WideCells, que não se esqueça de que um material biológico como este, que normalmente não é preservado, pode salvar vidas e dar lugar a terapias médicas futuras.